6.1.11

Meu novo velho DVD

De Donizete Oliveira:
Fim de ano é tempo de comprar. Pelo menos é o que diz o movimento nas ruas e os anúncios na mídia. Tudo parece estar à venda. Nas lojas, uma multidão disputa mercadorias. Não faltam promoções. Nos supermercados, até chegar ao caixa é preciso se achar num labirinto de barras de chocolates com preços e sabores para todos os gostos.
Embalado nessa onda fui comprar um DVD. Na minha casa já tenho o não tanto cobiçado aparelhinho. Mas nas férias sempre vou à casa da minha irmã numa cidade vizinha e ela ainda não abandonou o vídeo cassete. Então resolvi, comprar um para deixar lá. Assim quando quiser ver algum filme, não preciso aumentar minha bagagem com meu aparelho. Ainda mais que estou sem carro. Andar com muita bagagem em ônibus não é bom negócio. Pesa e se torna incômodo.
Não imaginava o preço de um DVD. O que tenho em casa comprado há alguns anos, custou um absurdo. Na época, era novidade. E nem tem caraoquê. Se bem que não me importo com esses luxos. Aliás, detesto essa mania de cantar com auxílio de legendas.
Entrei na loja e com muito custo encontrei um vendedor. Disse que queria ver um DVD. Ele mostrou vários modelos e marcas. Os preços não passavam de R$ 250. Escolhi um de R$ 100 com entrada para USB, caraoquê e outros detalhes que nem quis saber, pois jamais vou usá-los.
O vendedor queria que eu levasse um Blu-Ray, aparelho com mais definição de imagem e som. Segundo ele, o DVD está ultrapassado. Como nunca ouvira falar do tal Blu-Ray, descartei-o. Nem quis vê-lo. Até porque daqui a alguns meses será substituído por outra novidade.
Lembro-me que no começo da década de 90, a bola da vez era o vídeo cassete. Ai de quem não tivesse um! Lá por 1997, surgiu o DVD. Quase ninguém podia comprá-lo, o que levou as locadoras a dispor de aparelhos para alugar.
Saí satisfeito da loja com meu novo velho DVD, mas a velocidade do consumo às vezes me assusta. E não é só consumo rotineiro. Tudo hoje virou uma espécie de “produto fantasma”. Some e dali a pouco reaparece envolto em nova nuvem de fumaça. Está difícil até ouvir rádio e assistir à TV. Nada contra o credo de cada um, mas é insuportável ver um sujeito falar insistentemente que o seu deus é o deus verdadeiro e quem quiser se salvar que faça a vontade dele.
Tenho hábito de ouvir rádio de madrugada e, muitas vezes, sou invadido por afoitos pregadores. As emissoras deles têm potência elevada e, em onda curta, atrapalham meu dial. Tenho de ficar segurando o botão do rádio para não perder a sintonia.
Mas eles não parecem satisfeitos com o rádio e a TV e resolveram sair às ruas com um carro de som a bradar que o fim está próximo e salve-se quem puder. Ou melhor, quem seguir a mensagem do deus anunciado. Aquele que renegá-la vai torrar no fogo do inferno.
Para me livrar disso tudo, o jeito é desligar a TV e o rádio e apelar para o novo velho aparelho de DVD. Mas e filmes em DVD para testá-lo? Na rua, uma moça me cerca com uma sacola cheia deles. Todos musicais de cantores religiosos e sertanejos ditos modernos, interpretes de canções desfiguradas.
O consumo parece um polvo que tenta nos capturar em todos os sentidos. Para enganá-lo, viajei rápido para a casa da minha irmã com meu novo velho DVD a tiracolo. Ah, para assistir? Mondovino, documentário sobre a história do vinho, que vi numa de minhas aulas de mestrado e comprei pela internet de um sebo do Rio de Janeiro.
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Donizete Oliveira, jornalista e professor

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